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O que era visível em nosso Salvador…

Os Evangelhos narram o quanto Jesus atraía as pessoas para junto de si. São inúmeras as passagens nas quais os encontros de Jesus produzem alegria de quem é visto tocado, abraçado, protegido, elogiado ou curado pelo Senhor. Lucas, numa destas ocasiões registra que Jesus é teóforo, isto é, portador de Deus: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo.” (Lc 7,16).

O contexto no qual esta proclamação de fé se dá é a cura do filho da viúva de Naim. Na verdade, o relato conta mais do que uma cura. Jesus, com seu toque e sua palavra ressuscita o jovem. Dois cortejos se encontram: Jesus e seus discípulos, o cortejo da vida; outro grupo de pessoas acompanha a viúva no enterro de seu filho, o cortejo da morte. Uma multidão assiste ao desenrolar do evento salvífico e é ela quem proclama o gesto de Jesus como ação de origem divina.

É muito significativo que a versão latina deste texto traga o termo surrexit para traduzir o grego egérgetai, que significa ‘levantar’ e também mantenha o verbo visitavit para traduzir episketmai. Esta palavras são importantes porque permitem uma conexão com outro texto de Lucas, o Benedictus. Aquele hino entoado por Zacarias quando seu filho, João, nasce, é introduzido com o pronunciar de uma bênção pela visita de Deus: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel que visitou o seu povo e o libertou.” (Lc 1,68). Ao enumerar os motivos desta ação de graças diz: “e suscitou-nos uma força de Salvação.” (Lc 1,69). (No final, o sacerdote conclui o hino dizendo que graças ao seu amor visceral, o Sol das Alturas visita Israel, retirando-os da morte e guiando-os pelos caminhos da paz. (cf. Lc 1,78-79). Aqui aparecem os mesmos verbos, em grego e em latim, que significam levantar (egeiro, surrexit) e visitar (episketmai, visitavit).

Ao narrar Jesus ressuscitando o filho da viúva, Lucas não somente informa que ele traz de volta à vida o jovem defunto, mas revela que nele atua o poder de Deus. É força do Deus de Israel que brilha em seus gestos e é sua Palavra que produz a salvação pela quando Jesus fala. Isso é possível para Jesus porque sua maneira de ser humano traz em comum com o Deus de Israel a quem chama de Pai, as entranhas misericordiosas.

Jesus– ele mesmo – é o cornu salutis nobis (o Chifre de nossa salvação). Na tradição bíblica, é símbolo de poder, fortaleza. Esta expressão é tirada do Salmo 18,3 onde se lê: “Nele me abrigo, meu rochedo, meu escudo e minha força salvadora” (=cifre). Não parece evocar a violência mas a força física que derrota os inimigos. A força de Deus que atua em seus profetas e alcança a história.

Mas esta imagem – mantida pelo texto latino – conserva a abrangência da metáfora. O chifre nos lembra o shofar, instrumento musical com o qual se convocava o povo para o tempo de graça; o termo em hebraico também pode ser traduzido como fulgor, brilho, resplendor (de Deus). Também lembra a unção para exercer o reinado, como no caso de Davi (cf. 1Sm 16,1) o que nos traz o sentido também messiânico.

Assim, Jerônimo dirá que “o som do chifre simboliza o homem de Deus, homem que já está reinando” ao explicar a vinda de Cristo. Eusébio de Cesareia dirá claramente que Cristo é o Chifre de nossa salvação, segundo sua interpretação do Salmo 18(17).

Conforme cantamos na Liturgia das Horas, Cristo é o clarão da glória do Pai. Deste modo, podemos dizer que o Pai se torna visível nos gestos e palavras de Jesus: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). As pessoas faziam experiência de Deus ao encontrar-se com Jesus. Ele é sacramento primeiro e primordial, Sacramento do Pai. Nele contemplamos a atuação de Deus e, como dizia Santo Atanásio, qualquer ser humano mediante seus sentidos poderia ser para ele atraído.

Padre Márcio Pimentel, é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)

In: Opinião e noticias 14.07.2017