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Sobre a importância da Ritualidade

Filhos da cultura do ocidente, experimentamos certa desconfiança dos ritos. O racionalismo, que marcou nossa educação desde o século XVII, criou a falsa verdade de que tudo pode ser dominado e conhecido apenas pela via do intelecto. Aquilo que escapa à ideia de causa e efeito, o que não pode ser explicado à maneira positivista, aquilo que não for observável até às minúcias verificáveis segundo a ciência indutiva, não deveria obter crédito ou ser levado muito a sério.

O surgimento das ciências humanas, no entanto, somada ao declínio da razão como detentora da verdade e promotora das revoluções e desenvolvimento, o aparecimento da física quântica entre outros fenômenos abriu-nos a portas para outras possibilidades de conhecer. Isso significa que há formas de interação com o mundo e entre as pessoas mediadas pelas artes, pela tessitura das relações interpessoais e das distintas subjetividades, marcadas também pelo selo da cultura, dos valores e da religiosidade e da afetividade que indicam um outro intelectus. É possível ler o mundo, a vida e as pessoas sem necessariamente coloca-los sob as lentes do microscópio.

Os ritos – fenômeno antropológico presente em todas as culturas até então conhecidas – figura como uma destas várias maneiras atuar e interagir e conhecer. Não estamos falando apenas de ritos religiosos. Em todas ou quase todas as formas do agir humano encontramos o recurso à ritualização. Podemos observar uma maneira ritual que temos para começar o dia e para termina-lo. Uma maneira de tomar as refeições (e mesmo de prepará-las). Forjamos ritos para estabelecer, firmar e desenvolver o nosso universo afetivo; há ritos em nosso ambiente de trabalho, seja ele um hospital ou uma loja de roupas. Há ritos para organizar a nossa semana, o nosso mês, e mesmo o ano. Enfim, como diria Rappaport, estudioso do fenômeno ritual, o ser humano – enquanto tal – nasce ritualmente (TERRIN, 2010, p. 138).
O Rito e a Liturgia pós-conciliar

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacronsanctum Concilium (SC) dará grande peso à ritualidade. Será indicada – inclusive – como meio pelo qual os fiéis são chamados à participação ativa, consciente, pia e frutuosa. Por essa razão, solicita que os ritos sejam revistos para que deixem transparecer o evento que devem comunicar, no caso, a vida de Jesus de Nazaré.

Podemos abordar a perspectiva ritual na SC sob três óticas: o rito e o evento pascal, uma vez que a Liturgia é lida em sua relação com a história da salvação; o rito e a experiência da fé, quando a Constituição trata da participação ativa; o rito e sua forma histórica, quando se fala da necessidade de formação e reforma. (cf. TERRIN, p. 220-243).
O mais importante para nós é perceber que a via ritual como recurso para a experiência do Mistério Pascal pertence – teologicamente – à ordem da encarnação. Esta é a compreensão mais antiga (patrística) e mais de acordo com a revelação bíblica. Uma citação de Tertuliano pode nos ajudar a verificar este enraizamento teológico. Tertuliano escreve:

Vejamos também agora… como é grande diante de Deus a prerrogativa desta substância insignificante e vil que é a carne, embora a ela lhe baste o fato de nenhuma alma poder alcançar a salvação, salvo se acreditar enquanto está na carne: até tal extremo a carne é instrumento da salvação (cardo). Quando entre a alma e Deus se estabelece um elo de salvação, é a carne que faz com que ele exista. Assim, a carne é lavada, para que a alma seja purificada; a carne é ungida para que a alma seja consagrada; a carne é marcada com o sinal da cruz, para que a alma seja fortalecida; a carne é coberta com a sombra da imposição das mãos, para que a alma seja iluminada pelo Espírito; a carne é alimentada com o Corpo e Sangue de Cristo, para que a própria alma seja saciada de Deus.

Observemos como Tertuliano ancora o acesso ao Mistério à ‘carne’. A humanidade, na mentalidade dos padres – que só se entende encarnada – torna-se instrumento da salvação, como dizia Atanásio, ao ser assumida pelo Verbo de Deus. Na verdade, a SC irá precisar esta afirmação ao dizer que é a pessoa do Verbo enquanto ser humano a causa de nossa salvação.

Ambrósio, por sua vez, nos diz com clareza o por quê dessa noção tão otimista sobre a nossa humanidade estar munida de tal dignidade (de ser mediadora do Mistério):
Tomou de nós o que ofereceria como seu por nós, para nos redimir com o nosso e conferir-nos o que é seu e não era nosso, em sua divina generosidade.
Aqui encontramos o lugar preciosos do rito, como linguagem que revela e constitui a nossa humanidade, sem a qual não podemos experimentar a salvação.

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)

In: Opinião e Notícias 28.07.2017