Mal começo a conversa e um garoto me questiona sobre a data e o local do nascimento de Jesus. Viu na internet uma matéria que dizia que Jesus não nasceu nem em 25 de dezembro, nem em Belém.Arrisco-me a falar sobre o sentido cristão do Natal para uma plateia de adolescentes da geração Google, esta que já nasceu sem pecado original. Para eles, todos os mistérios podem ser decifrados com um click no teclado. Em não sei quantos microsegundos, eis a resposta na tela.
É duro ser professor de Religião em tempos de Wikipédia...
Convido-os a fazer uma roda, sento-me ao lado deles, ficamos do mesmo tamanho e começo o que quer ser uma prosa sobre o espírito do Natal.
- Olha, meninada, em tudo podemos buscar a coisa e o espírito da coisa. Vamos, primeiro, à “coisa”.
Quanto à data de nascimento de Jesus, a reportagem certamente tem razão. Jesus de Nazaré não nasceu no dia 25 de dezembro. Esta data foi uma apropriação do cristianismo quando se integrou à cultura romana, vivendo um processo de sincretismo religioso semelhante ao experimentado, séculos depois, pelos escravos africanos, obrigados a camuflar seus deuses tribais entre os santos católicos.

- O que é sincretismo, professor?
- É misturar e fundir elementos de diferentes culturas, no caso, de diferentes religiões. Mas eu dizia que sobre a data real do nascimento de Jesus sabemos muito pouco. Afinal, a Bíblia não é um livro de História, nem de Ciências. É um livro de fé. Os evangelhos, por exemplo, não são uma biografia de Jesus. Eles trazem apenas informações e um ou outro detalhe que ajudam a compreender a mensagem do Mestre, a sua Boa Nova. Ela é o foco da narrativa. Mesmo assim, aqui e ali podemos pinçar alguma coisa.
Por exemplo, o evangelista Mateus nos informa que Jesus nasceu no tempo de Herodes, o Grande (Mt 2,13-23), um rei dos judeus que morreu na primavera do ano 750 do calendário romano, que corresponde ao ano 4 antes de Cristo. Baseando-nos nessas informações e outros estudos, sabemos, hoje, que o ano mais provável do nascimento de Jesus seria entre 7 ou 6 antes da era cristã, ou seja, estaríamos, na verdade, no ano 2019 ou 2020. Complicado, né? Mas vejamos mais alguns dados históricos que explicam o 25 de dezembro.
No ano 274 da era cristã o Imperador Aureliano proclamou o 25 de dezembro, como o Dia do Nascimento do Sol Invencível. É que neste período acontece, no hemisfério norte, o solstício do inverno, que vem a ser a noite mais longa do ano. Mesmo assim, o sol nasce e vence as trevas, fazendo brilhar sua luz sobre todos. Era a festa do Deus Sol Invictus!
Por volta do ano 312 d.C. o imperador Constantino converteu-se ao Cristianismo e o elevou à categoria de religião oficial do Império Romano. Acelera-se o processo de sincretismo, de inculturação cristã no universo pagão.
Ora, se durante o mês de dezembro celebravam-se as grandes festas pagãs, inclusive a Festa do “Deus Sol Invictus”, que vence as trevas e brilha sobre todos, nada mais significativo e adequado que dar-lhe uma roupagem e significado cristão. Afinal, é o próprio Jesus que diz: “Eu sou a Luz do mundo, quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida”. No prólogo do seu evangelho, João diz: “Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens... Era a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo...” Simples assim: “A ADEMG informa: sai a festa do deus Sol, pagão, entra a festa do Filho de Deus, Jesus, cristão”.
E nasce o Natal.
- Mas e a outra “coisa”, o lugar onde Jesus nasceu?
É... a definição do local de nascimento de Jesus é mais complicada. A narrativa dos evangelhos é clara em situar este acontecimentoem Belém. Afinal, todas as profecias do Primeiro Testamento apontam para a pequena cidade de Judá. Mas há quem argumente que o título “Jesus de Nazaré”, seria um indício de que ele teria nascido naquela aldeia da Galiléia. Neste caso, acho que a polêmica, provavelmente, permanecerá.
Mas, na verdade, o onde e quando são detalhes acidentais. O essencial é saber o porquê Jesus nasceu...
- Tá bom, vamos lá ao “espírito da coisa...”
- É a melhor parte. Buscar e contemplar o “espírito do natal” nos permite perguntar quando e onde Jesus nasceu de outra forma. Aí, quem sabe, encontraríamos diferentes respostas...
Maria, sua mãe, talvez nos dissesse:
- Jesus nasceu numa tarde em que eu estava sozinha, em minha casa, em Nazaré da Galiléia. Eu rezava. Senti, então, uma luz que brilhava em mim e à minha volta. E um mensageiro de Deus falou ao meu coração. Desde então, nunca mais me vi ou me senti só. Ele estava e está em mim. Mas não o guardei comigo. Eu o ofereci de presente ao mundo e aos homens...
José, esposo de Maria, responderia, quem sabe, assim:
- Jesus nasceu, para mim, numa noite de sono atribulado, de pesadelos que torturavam o meu coração. Então o vi no olhar suave de Maria, minha noiva, no seu sorriso doce, na sua fidelidade ao Pai. Quando a abracei, Ele nasceu em mim.
Um grupo de pastores, em Belém, diria:
- Jesus foi, primeiro, uma estrela no céu. Mas o desejo da sua vinda já brilhava em nosso coração...
Os magos confirmariam:
- Seguimos a estrela que anunciava a chegada de um rei. Encontramos um menino pequeno e frágil, seu pai e sua mãe, ambos simples e pobres. Jesus nasceu, para nós, num momento de surpresa, num lugar chamado simplicidade...
Os amigos de infância de Jesus, entre risos, afirmariam:
- Jesus nascia todos os dias, nas brincadeiras, na amizade, na alegria. Ele era, sempre, um companheiro, um amigo. Quando estava conosco era um renascimento.
João Batista contaria seu segredo:
- Meu coração bateu mais forte quando o vi, entrando no rio Jordão e caminhando em minha direção. Ele sorria e parecia saber exatamente o que fazer. Quando pediu que eu o batizasse, senti que algo extraordinário nascia naquele momento e lugar. E eu era parte dessa história. Meu coração exultou de alegria e me senti, de novo, criança, no ventre de minha mãe...
Simão daria o seguinte depoimento:
- Ele apareceu às margens do lago e não entendia nada de pescaria. Mas chamou a mim e meus amigos para segui-lo e sua voz fez nascer em minha alma uma sede que só ele podia saciar. Deixei tudo e, naquele dia, nasceu Pedro.
Maria de Magdala lembraria o dia em que encontrou Jesus.
- Eu o vi e ele era apenas mais um homem. Mas me olhou de um modo que homem nenhum jamais havia me olhado. Tive vergonha, mas Ele me amou por mim mesma e fez nascer uma mulher que eu nunca tinha sido, mas desejava ardentemente poder ser. Então, eu o segui até o túmulo, e depois do túmulo. Eu o vi renascer.
Tomé, emocionado, confessaria:
- Jesus estendeu as mãos e vi as marcas dos cravos. Era um sinal de morte, mas tudo nele era vida. Eu acreditei, e tive uma santa inveja dos que não precisaram ver, para renascer...
E assim, por quase dois mil anos de História podemos colher insistentes relatos de “nascimentos de Jesus” em lugares, circunstâncias e tempos mais extraordinários... ou comuns. Das formas mais diversas. Parece que todo ser humano sobre a face da Terra tem seu momento de vislumbre, sua “visão”, seu natal. E ele, quando acontece em profundidade, é decisivo. É capaz de mudar o rumo de uma vida. É capaz de dar sentido a gestos que só podem ser entendidos por aqueles que vivem grandes paixões.
Por isso, ao longo do Tempo e da História, poderíamos perguntar a todos e a cada um, quando e onde lhe nasceu Jesus.
Eu teria dificuldades em responder por mim mesmo. Meu primeiro impulso seria dizer que Ele nasceu, para mim, numa capela improvisada, forrada de capim, quase uma manjedoura, na cidade de Itaúna, no interior de Minas. Era fevereiro do ano de 1972. Eu participava de um encontro de jovens e, naquele dia, compreendi em meu coração que Deus não era uma ideia, mas uma pessoa que me conhecia e amava, desde sempre.
Ele renasceria, para mim muitas vezes. Em três ocasiões, num lugar adequado a nascimentos: uma sala de parto, num hospital. Nascia em mim um pai e Jesus, se fazia, cada vez mais, irmão...
Foi Natal, no dia em que pude ajudar um amigoem dificuldades. FoiNatalquando pedi e recebi perdão. Foi Natal quando O enxerguei no morador de rua, meu irmão. É Natal, todos os dias, na minha sala de aula, quando Ele nasce e renasce nas gerações e gerações de alunos que permitem que eu me sinta, ao menos um pouquinho, mestre, como Ele foi.
É Natal e também é Páscoa, quando, todos os dias, Ele morre por causa do meu egoísmo, e renasce pela força do meu amor...
E para você, meu irmão querido, minha irmã amada, quando e onde lhe nasceu Jesus?
Eduardo Machado
Professor de ensino religioso e escritor em Belo Horizonte-MG
17.12.2013

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
AOS CATEQUISTAS VINDOS A ROMA
EM PEREGRINAÇÃO POR OCASIÃO DO ANO DA FÉ
E DO CONGRESSO INTERNACIONAL DE CATEQUESE
Sala Paulo VI
Sexta-feira, 27 de Setembro de 2013
Amados catequistas, boa tarde!
Gosto de que haja, no Ano da Fé, este encontro para vós: a catequese constitui uma coluna para a educação da fé, e são precisos bons catequistas! Obrigado por este serviço à Igreja e na Igreja. Embora possa às vezes ser difícil – trabalha-se tanto, empenha-se e não se vêem os resultados desejados –, mas educar na fé é maravilhoso! É talvez a melhor herança que possamos dar a alguém: a fé! Educar na fé, para que essa pessoa cresça. Ajudar as crianças, os adolescentes, os jovens, os adultos a conhecerem e amarem cada vez mais o Senhor é uma das mais belas aventuras educativas; está-se a construir a Igreja! «Ser» catequista! Não trabalhar como catequista: isso não adianta! Trabalho como catequista, porque gosto de ensinar… Se porém tu não és catequista, não adianta! Não serás fecundo, não serás fecunda! Catequista é uma vocação. «Ser catequista»: esta é a vocação; não trabalhar como catequista. Atenção que eu não disse «fazer» o catequista, mas «sê-lo», porque compromete a vida: guia-se para o encontro com Cristo, através das palavras e da vida, através do testemunho. Lembrai-vos daquilo que nos disse Bento XVI: «A Igreja não cresce por proselitismo. Cresce por atracção». E aquilo que atrai é o testemunho. Ser catequista significa dar testemunho da fé; ser coerente na própria vida. E isto não é fácil. Não é fácil! Nós ajudamos, guiamos para chegarem ao encontro com Jesus através das palavras e da vida, através do testemunho. Gosto de recordar aquilo que São Francisco de Assis dizia aos seus confrades: «Pregai sempre o Evangelho e, se for necessário, também com as palavras». As palavras têm o seu lugar… mas primeiro o testemunho: que as pessoas vejam na nossa vida o Evangelho, possam ler o Evangelho. E «ser» catequista requer amor: amor cada vez mais forte a Cristo, amor ao seu povo santo. E este amor não se compra nas lojas, nem se compra sequer aqui em Roma. Este amor vem de Cristo! É um presente de Cristo! É um presente de Cristo! E se vem de Cristo, parte de Cristo; e nós devemos recomeçar de Cristo, deste amor que Ele nos dá. Para um catequista, para vós e para mim, porque também eu sou catequista, que significa este recomeçar de Cristo? Que significa?
Eu vou falar de três pontos: um, dois e três, como faziam os antigos jesuítas… um, dois e três!
1. Antes de tudo, recomeçar de Cristo significa cultivar a familiaridade com Ele, ter esta familiaridade com Jesus: Jesus recomenda-o, com insistência, aos discípulos na Última Ceia, quando Se prepara para viver o dom mais sublime de amor, o sacrifício da Cruz. Recorrendo à imagem da videira e dos ramos, Jesus diz: Permanecei no meu amor, permanecei ligados a mim, como o ramo está ligado à videira. Se estivermos unidos a Ele, podemos dar fruto, e esta é a familiaridade com Cristo. É permanecer em Jesus! Permanecer ligados a Ele, dentro d’Ele, com Ele, falando com Ele: permanecer em Jesus.
A primeira coisa necessária para um discípulo é estar com o Mestre, ouvi-Lo, aprender d’Ele. E isto é sempre válido, é um caminho que dura a vida inteira! Recordo que, na diocese (na outra diocese que tinha antes), via muitas vezes, no fim dos cursos no seminário catequético, os catequistas saírem dizendo: «Tenho o título de catequista!». Isso não adianta, não tens nada, fizeste apenas um bocado de estrada! Quem te ajudará? Isto sim, que vale sempre! Não um título, mas um procedimento: estar com Ele; e dura toda a vida! É estar na presença do Senhor, deixar-se olhar por Ele. Pergunto-vos: Como estais na presença do Senhor? Quando ides ter com o Senhor, enquanto olhais o Sacrário, que fazeis? Sem palavras… Mas eu falo, falo, penso, medito, ouço… Muito bem! Mas tu… deixas-te olhar pelo Senhor? Sim, deixar-se olhar pelo Senhor. Ele olha-nos, e esta é uma maneira de rezar. Deixas-te olhar pelo Senhor? Mas, como se faz? Olhas para o Sacrário e deixas-te olhar… é simples! É um pouco maçador, adormeço… Se adormeceres, adormeces! Ele olhar-te-á igualmente, olhar-te-á igualmente. Mas, teres a certeza de que Ele te olha é muito mais importante do que o título de catequista: faz parte do ser catequista. Isto inflama o coração, mantém aceso o fogo da amizade com o Senhor, faz-te sentir que Ele verdadeiramente olha para ti, está perto de ti e te ama. Numa das saídas que tive, aqui em Roma, por ocasião de uma Missa, aproximou-se um senhor, relativamente jovem, e disse-me: «Padre, prazer em conhecê-lo; mas eu não acredito em nada! Não tenho o dom da fé!» Ele entendia que a fé era um dom. «Não tenho o dom da fé! Que me recomenda o senhor?» «Não desanimes! Deus ama-te. Deixa-te olhar por Ele. E basta». O mesmo vos digo a vós: Deixai-vos olhar pelo Senhor! Compreendo que, para vós, não é tão simples: especialmente para quem é casado e tem filhos, é difícil encontrar um tempo longo de tranquilidade. Mas, graças a Deus, não é necessário que todos façam da mesma maneira; na Igreja, há variedade de vocações e variedade de formas espirituais; o importante é encontrar o modo adequado para estar com o Senhor; e isto pode acontecer, é possível em todos os estados de vida. Neste momento, cada um pode interrogar-se: Como é que eu vivo este «estar» com Jesus? Esta é uma pergunta que vos deixo: «Como é que eu vivo este estar com Jesus, este permanecer em Jesus?» Tenho momentos em que permaneço na sua presença, em silêncio, e me deixo olhar por Ele? Deixo que o seu fogo inflame o meu coração? Se, no nosso coração, não há o calor de Deus, do seu amor, da sua ternura, como podemos nós, pobres pecadores, inflamar o coração dos outros? Pensai nisto!
2. O segundo elemento é este – dois – recomeçar de Cristo significa imitá-Lo na saída de Si mesmo para ir ao encontro do outro. Trata-se de uma experiência maravilhosa, embora um pouco paradoxal. Porquê? Porque, quem coloca Cristo no centro da sua vida, descentraliza-se! Quanto mais te unes a Jesus e Ele Se torna o centro da tua vida, tanto mais Ele te faz sair de ti mesmo, te descentraliza e abre aos outros. Este é o verdadeiro dinamismo do amor, este é o movimento do próprio Deus! Sem deixar de ser o centro, Deus é sempre dom de Si, relação, vida que se comunica... E assim nos tornamos também nós, se permanecermos unidos a Cristo, porque Ele faz-nos entrar neste dinamismo do amor. Onde há verdadeira vida em Cristo, há abertura ao outro, há saída de si mesmo para ir ao encontro do outro no nome de Cristo. E o trabalho do catequista é este: por amor, sair continuamente de si mesmo para testemunhar Jesus e falar de Jesus, anunciar Jesus. Isto é importante, porque é obra do Senhor: é precisamente o Senhor que nos impele a sair.
O coração do catequista vive sempre este movimento de «sístole-diástole»: união com Jesus - encontro com o outro. Existem as duas coisas: eu uno-me a Jesus e saio ao encontro dos outros. Se falta um destes dois movimentos, o coração deixa de bater, não pode viver. Recebe em dom o querigma e, por sua vez, oferece-o em dom. Importante esta palavrinha: dom! O catequista está consciente de que recebeu um dom: o dom da fé; e dela faz dom aos outros. Isto é maravilhoso! E não reserva uma percentagem para si! Tudo aquilo que recebe, dá-o. Aqui não se trata de um negócio! Não é um negócio! É puro dom: dom recebido e dom transmitido. E o catequista está ali, nesta encruzilhada de dom. Isto está na própria natureza do querigma: é um dom que gera missão, que impele sempre para além de si mesmo. São Paulo dizia: «O amor de Cristo nos impele»; mas esta expressão «nos impele» também se pode traduzir por «nos possui». É assim o amor: atrai-te e envia-te, toma-te e dá-te aos outros. É nesta tensão que se move o coração do cristão, especialmente o coração do catequista. Perguntemo-nos, todos: É assim que bate o meu coração de catequista: união com Jesus e encontro com o outro? Com este movimento de «sístole e diástole»? Alimenta-se na relação com Ele, mas para O levar aos outros e não para o reter? Eis o que vos digo: Não compreendo como possa um catequista ficar parado, sem este movimento. Não compreendo!
3. E o terceiro elemento – três – situa-se também nesta linha: recomeçar de Cristo significa não ter medo de ir com Ele para as periferias. Isto traz-me à mente a história de Jonas, uma figura muito interessante, especialmente nos nossos tempos de mudanças e incerteza. Jonas é um homem piedoso, com uma vida tranquila e bem ordenada; isto leva-o a ter bem claros os seus esquemas e a julgar rigidamente tudo e todos segundo esses esquemas. Vê tudo claro, a verdade é esta. É rígido! Por isso, quando o Senhor o chama e lhe diz para ir pregar à grande cidade pagã de Nínive, Jonas não quer. Ir lá! Mas eu tenho toda a verdade aqui! Não quer ir… Nínive está fora dos seus esquemas, está na periferia do seu mundo. Então escapa, vai para Espanha, foge, embarca num navio que vai para aqueles lados . Ide ler o Livro de Jonas! É breve, mas é uma parábola muito instrutiva, especialmente para nós que estamos na Igreja.
Que nos ensina? Ensina-nos a não ter medo de sair dos nossos esquemas para seguir a Deus, porque Deus vai sempre mais além. Sabeis uma coisa? Deus não tem medo! Sabíeis isto?! Não tem medo! Ultrapassa sempre os nossos esquemas! Deus não tem medo das periferias. Se fordes às periferias, encontrá-Lo-eis lá. Deus é sempre fiel, é criativo. Mas, por favor, não se compreende um catequista que não seja criativo. A criatividade é como que a coluna do ser catequista. Deus é criativo, não se fecha, e por isso nunca é rígido. Deus não é rígido! Acolhe-nos, vem ao nosso encontro, compreende-nos. Para sermos fiéis, para sermos criativos, é preciso saber mudar. Saber mudar. E porque devo mudar? É para me adequar às circunstâncias em que devo anunciar o Evangelho. Para permanecermos com Deus, é preciso saber sair, não ter medo de sair. Se um catequista se deixa tomar pelo medo, é um covarde; se um catequista se fecha tranquilo, acaba por ser uma estátua de museu: e temos muitos! Temos muitos! Por favor, estátuas de museu, não! Se um catequista é rígido, torna-se encarquilhado e estéril. Pergunto-vos: Alguém de vós quer ser covarde, estátua de museu ou estéril? Algum de vós tem vontade de o ser? [catequistas: Não!] Não? Têm a certeza? … Está bem! Aquilo que vou dizer agora, já o disse muitas vezes; mas sinto no coração que o devo dizer. Quando nós, cristãos, estamos fechados no nosso grupo, no nosso movimento, na nossa paróquia, no nosso ambiente, permanecemos fechados; e acontece-nos o que sucede a tudo aquilo que está fechado: quando um quarto está fechado, começa a cheirar a mofo. E se uma pessoa está fechada naquele quarto, adoece! Quando um cristão está fechado no seu grupo, na sua paróquia, no seu movimento, está fechado, adoece. Se um cristão sai pelas estradas, vai às periferias, pode acontecer-lhe o mesmo que a qualquer pessoa que anda na estrada: um acidente. Quantas vezes vimos acidentes estradais! Mas eu digo-vos: prefiro mil vezes uma Igreja acidentada que uma Igreja doente! Prefiro uma Igreja, um catequista que corra corajosamente o risco de sair, que um catequista que estude, saiba tudo, mas sempre fechado: este está doente. E às vezes está doente da cabeça…
Atenção, porém! Jesus não diz: Ide, arranjai-vos. Não, não diz isso! Jesus diz: Ide, Eu estou convosco! Nisto está o nosso encanto e a nossa força: se formos, se sairmos para levar o seu Evangelho com amor, com verdadeiro espírito apostólico, com franqueza, Ele caminha connosco, precede-nos, - digo-o em espanhol – nos «primerea». O Senhor sempre nos «primerea»! Decerto já aprendestes o significado desta palavra!. E isto é a Bíblia que o diz, não eu. A Bíblia diz, ou melhor, o Senhor diz na Bíblia: Eu sou como a flor da amendoeira. Porquê? Porque é a primeira flor que desabrocha na primavera. Ele é sempre o «primero»! Ele é o primeiro! Para nós, isto é fundamental: Deus sempre nos precede! Quando pensamos que temos de ir para longe, para uma periferia extrema, talvez nos assalte um pouco de medo; mas, na realidade, Ele já está lá: Jesus espera-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sem fé. Vós sabeis uma das periferias que me faz tão mal, tão mal que me faz doer (senti-o na diocese que tinha antes)? É a das crianças que não sabem fazer o Sinal da Cruz. Em Buenos Aires, há muitas crianças que não sabem fazer o Sinal da Cruz. Esta é uma periferia! É preciso ir lá! E Jesus está lá, espera por ti para ajudares aquela criança a fazer o Sinal da Cruz. Ele sempre nos precede.
Amados catequistas, acabaram-se os três pontos. Recomeçar sempre de Cristo! Agradeço-vos pelo que fazeis, mas sobretudo porque estais na Igreja, no Povo de Deus em caminho, porque caminhais com o Povo de Deus. Permaneçamos com Cristo – permanecer em Cristo –, procuremos cada vez mais ser um só com Ele; sigamo-Lo, imitemo-lo no seu movimento de amor, no seu sair ao encontro do homem; e saiamos, abramos as portas, tenhamos a audácia de traçar estradas novas para o anúncio do Evangelho.
Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos acompanhe! Obrigado!
Maria é nossa Mãe; Maria, sempre, nos leva a Jesus! Elevemos uma oração, uns pelos outros, a Nossa Senhora [Ave Maria]. [Bênção]. Muito obrigado!
Imagem: site do Vaticano 2020

Publicamos abaixo a carta enviada pelo Papa Francisco ao Jornal La Republica e publicada dia 11.09.2013. A carta é uma resposta a indagações feitas pelo Jornalista e ateu Eugenio Scalfari.
Achamos importante para o catequista a reflexão que o Papa faz, sobretudo pela Beleza com que descreve a experiência da fé e a maneira com que o cristão precisa ver os não-crentes.
Eis o texto:
Ilustríssimo Doutor Scalfari, é com viva cordialidade que, embora somente em grandes linhas, gostaria de tentar com esta minha carta responder à sua, que, a partir das páginas do La Repubblica, o senhor quis me endereçar no dia 7 de julho com uma série de reflexões pessoais suas, que depois o senhor enriqueceu nas páginas do mesmo jornal, no dia 7 de agosto.
Agradeço-lhe, acima de tudo, pela atenção com que quis ler a Encíclica Lumen fidei. Ela, de fato, na intenção do meu amado Antecessor, Bento XVI, que a concebeu e em grande medida a redigiu, e do qual, com gratidão, eu a herdei, é dirigida não somente para confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já se reconhecem, mas também para suscitar um diálogo sincero e rigoroso com aqueles que, como o senhor, se definem como "um não crente há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré".
Parece-me, portanto, certamente positivo não só para nós, individualmente, mas também para a sociedade em que vivemos determo-nos para dialogar sobre uma realidade tão importante como a fé, que se refere à pregação e à figura de Jesus. Eu penso que há, em particular, duas circunstâncias que tornam hoje necessário e precioso esse diálogo.
Ele, aliás, constitui, como se sabe, um dos objetivos principais do Concílio Vaticano II, desejado por João XXIII, e do ministério dos Papas que, cada um com a sua sensibilidade e o seu aporte, desde então e até hoje caminharam no sulco traçado pelo Concílio. A primeira circunstância – como se refere nas páginas iniciais da Encíclica – deriva do fato que, ao longo dos séculos da modernidade, assistiu-se a um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e incidência sobre a vida do ser humano, desde o início, foram expressadas precisamente através do símbolo da luz, foi muitas vezes rotulada como a escuridão da superstição que se opõe à luz da razão. Assim, entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, de um lado, e a cultura moderna de marca iluminista, de outro, chegou-se à incomunicabilidade. Chegou agora o tempo, e o Vaticano II inaugurou justamente a sua época, de um diálogo aberto e sem preconceitos que reabra as portas para um sério e fecundo encontro.
A segunda circunstância, para quem busca ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da fé, deriva do fato de que esse diálogo não é um acessório secundário da existência do crente: ao invés, é uma expressão íntima e indispensável dela. Permita-me citar-lhe, a propósito, uma afirmação a meu ver muito importante da Encíclica: como a verdade testemunhada pela fé é a do amor – sublinha-se – "resulta claro que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; ao contrário, a verdade o torna humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e nos possui. Longe de nos enrijecer, a segurança da fé nos põe a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos" (n. 34). É esse o espírito que anima as palavras que eu lhe escrevo.
A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus. Um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direção e um sentido novo à minha existência. Mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que eu vivia e graças à qual eu encontrei o acesso à inteligência da Sagrada Escritura, à vida nova que, como água que jorra, brota de Jesus através dos Sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, imagem verdadeira do Senhor. Sem a Igreja – acredite-me –, eu não teria podido encontrar Jesus, embora na consciência de que aquele imenso dom que é a fé é custodiado nos frágeis vasos de barro da nossa humanidade.
Ora, é precisamente a partir daí, dessa experiência pessoal de fé vivida na Igreja, que eu me sinto confortável para ouvir as suas perguntas e para buscar, junto com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos, talvez, começar a fazer um trecho de caminho juntos.
Perdoe-me se eu não seguir passo a passo as argumentações propostas pelo senhor no editorial do dia 7 de julho. Parece-me mais frutífero – ou, ao menos, é mais natural para mim – ir de certo modo ao coração das suas considerações. Não vou entrar nem na modalidade expositiva seguida pela Encíclica, em que o senhor entrevê a falta de uma seção dedicada especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.
Observo apenas, para começar, que uma análise desse tipo não é secundária. Trata-se, de fato, seguindo, além disso, a lógica que guia o desdobramento da Encíclica, de deter a atenção sobre o significado do que Jesus disse e fez, e, assim, em última instância, sobre o que Jesus foi e é para nós. As Cartas de Paulo e o Evangelho de João, aos quais se faz referência particular na Encíclica, são construídos, de fato, sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré que chegou ao seu auge resolutivo na páscoa de morte e ressurreição.
Portanto, é preciso se confrontar com Jesus, eu diria, na concretude e na rudeza da sua história, como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelho, o de Marcos. Constata-se então que o "escândalo" que a palavra e a práxis de Jesus provocam em torno dele deriva da sua extraordinária "autoridade": uma palavra, esta, atestada desde o Evangelho de Marcos, mas que não é fácil traduzir bem em italiano. A palavra grega é "exousia", que, literalmente, refere-se ao que "provém do ser" que se é. Não se trata de algo exterior ou forçado, portanto, mas de algo que emana de dentro e que se impõe por si só. Jesus, com efeito, impressiona, surpreende, inova a partir – ele mesmo o diz – da sua relação com Deus, chamado familiarmente de Abbá, que lhe confere essa "autoridade" para que ele a gaste em favor dos homens.
Assim, Jesus prega "como quem tem autoridade", cura, chama os discípulos a segui-lo, perdoa... todas coisas que, no Antigo Testamento, são de Deus, e somente de Deus. A pergunta que mais vezes retorna no Evangelho de Marcos: "Quem é este que...?", e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como fim exercer um poder sobre os outros, mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isso até o ponto de pôr em jogo a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até desabar no estado de abandono sobre a cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus, até o fim.
E é precisamente então – como exclama o centurião romano aos pés da cruz, no Evangelho de Marcos – que Jesusse mostra, paradoxalmente, como o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu próprio ser, que o ser humano, cada ser humano, se descubra e viva também ele como seu verdadeiro filho. Isso, para a fé cristã, é certificado pelo fato de que Jesus ressuscitou: não para trazer novamente o triunfo sobre quem o rejeitou, mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a própria vida, até o fim, para testemunhar esse imenso dom.
A fé cristã crê nisto: que Jesus é o Filho de Deus que veio para dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, o senhor tem razão, ilustre Dr. Scalfari, quando vê na encarnação do Filho de Deus o eixo da fé cristã.Tertuliano já escrevia: "Caro cardo salutis", a carne (de Cristo) é o eixo da salvação. Porque a encarnação, isto é, o fato de que o Filho de Deus veio na nossa carne e compartilhou alegrias e dores, vitórias e derrotas da nossa existência, até o grito da cruz, vivendo todas as coisas no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o incrível amor que Deus tem por cada ser humano, o valor inestimável que lhe reconhece. Cada um de nós, por isso, é chamado a fazer seu o olhar e a escolha de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, de pensar e de agir. Essa é a fé, com todas as expressões que são descritas pontualmente na Encíclica.
Ainda no editorial do dia 7 de julho, o senhor me pergunta, além disso, como entender a originalidade da fé cristã, uma vez que ela se articula justamente na encarnação do Filho de Deus com relação a outras fés que gravitam, ao invés, em torno da transcendência absoluta de Deus.
A originalidade, eu diria, está precisamente no fato de que a fé nos faz participar, em Jesus, da relação que Ele tem com Deus que é Abbá e, nessa luz, da relação que Ele tem com todos os outros seres humanos, incluindo os inimigos, no sinal do amor. Em outros termos, a filiação de Jesus, como ela é apresentada pela fé cristã, não é revelada para marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros: mas para nos dizer que, n'Ele, todos somos chamados a ser filhos do único Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus é pela comunicação, não pela exclusão.
Certamente, segue-se também disso – e não é uma coisa pequena – aquela distinção entre a esfera religiosa e a esfera política que é sancionada no "dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César", afirmada com clareza por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se construiu a história do Ocidente. A Igreja, de fato, é chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, isto é, o amor e a misericórdia de Deus que alcançam todos os seres humanos, apontando para a meta ultraterrena e definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe a tarefa árdua de articular e encarnar na justiça e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé cristã, isso não significa fuga do mundo ou busca de qualquer hegemonia, mas sim serviço ao ser humano, a todo o ser humano e a todos os seres humanos, a partir das periferias da história e mantendo desperto o senso da esperança que impulsiona a fazer o bem apesar de tudo e olhando sempre além.
O senhor me pergunta também, na conclusão do seu primeiro artigo, o que dizer aos irmãos judeus acerca da promessa feita a eles por Deus: ela foi totalmente esvaziada? Esta é – acredite-me – uma interrogação que nos interpela radicalmente, como cristãos, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, redescobrimos que o povo judeu ainda é, para nós, a raiz santa a partir da qual germinou Jesus. Eu também, na amizade que cultivei ao longo de todos esses anos com os irmãos judeus na Argentina, muitas vezes na oração interroguei a Deus, de modo particular quando a mente ia ao encontro das recordações da terrível experiência do Holocausto. Aquilo que eu posso lhe dizer, com o apóstolo Paulo, é que nunca falhou a fidelidade de Deus à aliança feita com Israel e que, através das terríveis provações desses séculos, os judeus conservaram a sua fé em Deus. E por isso, a eles, nós nunca seremos suficientemente gratos, como Igreja, mas também como humanidade. Eles, além disso, justamente perseverando na fé no Deus da aliança, lembram a todos, também a nós, cristãos, o fato de que estamos sempre à espera, como peregrinos, do retorno do Senhor e que, portanto, sempre devemos estar abertos a Ele e nunca nos encastelarmos naquilo que já alcançamos.
Chego, assim, às três perguntas que o senhor me faz no artigo do dia 7 de agosto. Parece-me que, nas duas primeiras, o que está no seu coração é entender a atitude da Igreja para com aqueles que não compartilham a fé em Jesus. Acima de tudo, o senhor me pergunta se o Deus dos cristãos perdoa quem não crê e não busca a fé. Posto que – e é a coisa fundamental – a misericórdia de Deus não tem limites se nos dirigimos a Ele com coração sincero e contrito, a questão para quem não crê em Deus está em obedecer à própria consciência. O pecado, mesmo para quem não tem fé, existe quando se vai contra a consciência. Ouvir e obedecer a ela significa, de fato, decidir-se diante do que é percebido como bom ou como mau. E nessa decisão está em jogo a bondade ou a maldade do nosso agir.
Em segundo lugar, o senhor me pergunta se o pensamento segundo o qual não existe nenhum absoluto e, portanto, nem mesmo uma verdade absoluta, mas apenas uma série de verdades relativas e subjetivas, é um erro ou um pecado. Para começar, eu não falaria, nem mesmo para quem crê, em verdade "absoluta", no sentido de que absoluto é aquilo que é desamarrado, aquilo que é privado de qualquer relação. Ora, a verdade, segundo a fé crença, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação! Tanto é verdade que cada um de nós a capta, a verdade, e a expressa a partir de si mesmo: da sua história e cultura, da situação em que vive etc. Isso não significa que a verdade é variável e subjetiva, longe disso. Mas significa que ela se dá a nós sempre e somente como um caminho e uma vida. Talvez não foi o próprio Jesus que disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida"? Em outras palavras, a verdade, sendo definitivamente uma só com o amor, exige a humildade e a abertura a ser buscada, acolhida e expressada. Portanto, é preciso entendermo-nos bem sobre os termos, e, talvez, para sair dos impasses de uma contraposição... absoluta, refazer profundamente a questão. Penso que isso seja absolutamente necessário hoje para entabular aquele diálogo sereno e construtivo que eu esperava no início deste meu dizer.
Na última pergunta, o senhor me questiona se, com o desaparecimento do ser humano sobre a terra, também desaparecerá o pensamento capaz de pensar Deus. Certamente, a grandeza do ser humano está em poder pensar Deus. Isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas a relação entre duas realidades. Deus – este é o meu pensamento e esta é a minha experiência, mas quantos, ontem e hoje, os compartilham! – não é uma ideia, embora altíssima, fruto do pensamento do ser humano. Deus é Realidade, com "R" maiúsculo. Jesus no-lo revela – e vive a relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Deus não depende, portanto, do nosso pensamento. Além disso, mesmo quando viesse a acabar a vida do ser humano sobre a terra – e para a fé cristã, em todo caso, este mundo como nós o conhecemos está destinado a desaparecer –, o ser humano não deixará de existir e, de um modo que não sabemos, assim também o universo criado com ele. A Escritura fala de "novos céus e nova terra" e afirma que, no fim, no onde e no quando que está além de nós, mas para o qual, na fé, tendemos com desejo e expectativa, Deus será "tudo em todos".
Ilustre Dr. Scalfari, concluo assim estas minhas reflexões, suscitadas por aquilo que o senhor quis me comunicar e me perguntar. Acolha-as como a resposta tentativa e provisória, mas sincera e confiante, ao convite que nelas entrevi de fazer um trecho de estrada juntos. A Igreja, acredite-me, apesar de todas as lentidões, as infidelidades, os erros e os pecados que pode ter cometido e ainda pode cometer naqueles que a compõem, não tem outro sentido e fim senão o de viver e testemunhar Jesus: Ele que foi enviado pelo Abbá "para levar aos pobres o alegre anúncio, para proclamar aos presos a libertação e aos cegos a recuperação da vista, para libertar os oprimidos, para proclamar o ano de graça do Senhor" (Lc 4, 18-9).
Com proximidade fraterna,
Francisco
Ser catequista é ser encantador de gente, como Jesus foi. Ser encantador de gente se aprimora com o tempo e talvez seja uma das coisas mais lindas do Catequista: ser capaz de “abrir os olhos” das pessoas para a vida, para si mesmas, para o sagrado mistério do mundo e de Deus.
É uma delícia ser catequista, mesmo em meio a dor, sofrimento, dúvidas e decepções. Por isso, o catequista precisa ser declarado Feliz ou Bem-Aventurado:
Bem-aventurado o catequista que se sente chamado, no fundo do fundo de si mesmo, para essa missão. Foi capaz de ouvir a voz amorosa de Deus que o convida a ser companheiro na tarefa de construir um mundo novo.
Bem-aventurado o catequista que se descobre incompleto e, por isso, se coloca a caminho, em busca de formação, de reflexões, de conversas, de partilhas de experiências. É capaz de perder noites de sono, de dedicar dias inteiros a estudar, a ler bons livros, porque sabe que a educação da fé é uma arte que precisa de muita dedicação.
Bem-aventurado o catequista que se esforça para participar do seu grupo de catequistas porque acredita que o trabalho em conjunto é capaz de remover obstáculos e criar coisas novas. Sabe que a amizade é o encantador tempero da caminhada e da vida.
Bem-aventurado o catequista que, mesmo sem recursos disponíveis, aprendeu a ser criativo, sobretudo na arte de ser amigo dos catequizandos e soube inventar lugares e meios para anunciar a beleza de ser cristão e viver em comunidade.
Bem-aventurado o teimoso catequista que não desiste diante de desafios que aparecem na Igreja, na comunidade, no grupo de catequistas, no trabalho com os catequizandos. É capaz de "chorar as mágoas”, sem endurecer o coração. Tem o dom de se alegrar imensamente com as pequeninas conquistas e passos dados.
Bem-aventurado o catequista que descobriu a internet e as redes sociais como lugar de evangelização. Percebeu que Deus se revela em todo lugar. Está atento às novas linguagens e tem na música, na arte, no cinema, na poesia, formas privilegiadas para a transmissão da fé no mundo de hoje.
Bem-aventurado o catequista que percebeu que, sem a Beleza a experiência cristã e a catequese permanecem incompletas, porque Deus é Beleza, esplendor e espanto. A educação da fé provoca admiração, sobressaltos de infinito, paixão pelo Absoluto, uma inexplicável emoção que nos derruba nos caminhos de Damasco, que são os de todas as vidas e nos faz novos e inquietos.
Bem-aventurado o catequista que, apaixonado pela Palavra de Deus, descobriu na experiência de seguir Jesus Cristo a alegria de viver e, por isso, anuncia a Fé na Vida. Procura ser íntegro, justo, solidário, verdadeiro, de bem com a vida, comprometido com a comunidade de fé.

(Na foto: Pe. Konings SJ, Pe. Gopegui SJ, D. Aloísio Vitral, Inês Broshuis, Pe. Gruen SDB)
Bem-aventurados os catequistas que foram e são capazes de inspirar a caminhada, agregar pessoas, vislumbrar novos horizontes para a catequese neste país. Souberam prever ou apontar desafios e saídas em momentos de crise e escuridão. Conseguiram manter acesa a chama da alegria, apesar dos dramas que surgem no cumprimento da missão.
Não se trata de ser perfeito, mas consciente da sua imperfeição, o catequista é Feliz porque ama e se deixa surpreender pelo amor de Deus.
Lucimara Trevizan
Coordenadora da Comissão de Catequese do Regional Leste 2
“Se vocês tiverem fé do tamanho de uma semente de mostarda...” (Mt 17, 20)
Quando o ser humano vive afastado do mistério da Criação do grande mistério da vida e da morte, da vertigem do Infinito, “perde o melhor da festa”: passa pela vida como um turista tolo que devora quilômetros, de olho no mapa, sem “olhar” para a paisagem.
Ter fé é encarar de frente o mistério. A fé é um “encantamento”, “mergulho” confiante no infinito Amor de Deus, que aos poucos se manifesta nas coisas simples da vida a quem decide acolhê-lo com amor. Fé e encantamento andam sempre juntos.
Ter fé não é ter certeza absoluta; é estar aberto aos desafios que a vida apresenta em confronto com nossa consciência e com a Palavra de Deus. Não existem respostas prontas. A fé provoca questionamentos, perguntas, apresenta pistas, convida à ampla reflexão, ao profundo mergulho no mais íntimo de si, para que, pela experiência, encontre as próprias respostas.
A experiência bíblica de Deus se caracteriza pela constante purificação e atitude de busca. A Bíblia apresenta a experiência de um povo que sente sede de Deus, busca a Sua Face, é peregrino, acredita, se revolta, fabrica ídolos...Mas, no trajeto de sua caminhada, experimenta que Deus é o Deus da vida, da alegria, da festa... É o Deus do relacionamento e da intimidade; o Deus LIVRE para homens livres que constroem a própria história; o Deus presente na história como LIBERTADOR.
A fé é, pois, caminhada, movimento de abertura para o Pai, admirando-se e encantando-se com as novas descobertas e com os “mistérios” que se encontram dentro da pessoa e ao seu redor. FÉ é viver em “terra de andanças”, “saber armar a tenda”... Sair da própria segurança, da comodidade do que é conhecido... É “entrar” em uma terra nova, em um mundo (interior e exterior) que se abrirá na medida de nossa resposta.
Texto Bíblico: Heb. 11,1-40. A FÉ é como que possuir antecipadamente aquilo que se espera; ela engaja minha existência naquilo que não é visível e palpável, mas tão real que atrai o mais profundo do meu ser.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI
(In: Revista de Espiritualidade Inaciana, nº 91 – março 2013)
Achamos importante lembrar ao Catequista o sentido do Tríduo Pascal:
O Lava-pés: “Ensina-me a amar...” Não sabemos amar, muito menos amar até o fim. Quem nos ensina é Jesus. Para os judeus a páscoa é celebração da memória de sua história e identidade. Jesus, celebrando a Páscoa com seus doze discípulos, fez da páscoa o memorial de sua passagem, sua missão da parte de Deus e sua volta ao Pai, através do dom de sua vida na cruz. Fez da páscoa o memorial de seu amor até o fim. Jesus quis dizer mais ainda. Tomando a atitude de escravo, ele aponta para sua morte na cruz, morte de escravo. A cruz é o verdadeiro “serviço de escravo” que Jesus nos presta e pelo qual ele nos liberta. Não devemos ter medo de nos comprometer com quem morre por amor de nós!
Jesus lavou os pés dos discípulos para lhes dar um exemplo de serviço na humildade e no amor radical, que o levou a dar a vida por eles. Também nós devemos servir uns aos outros e dar nossa vida pelos irmãos. Para isso, não basta lavar, na cerimônia, uns pés que já foram anteriormente bem lavados. Trata-se de tornar-nos escravos daqueles que trataríamos como escravos. É uma subversão.
A Ceia Pascal: A páscoa Judaica não cai no mesmo dia que a nossa. Jesus consumiu com os discípulos, a páscoa judaica e no início dessa refeição, lavou os pés de seus discípulos, em sinal de exemplo do dom da própria vida. O Evangelista João nem menciona o momento da Eucaristia, porque a Eucaristia significa comunhão com Jesus, e esta comunhão se expressa maravilhosamente pelo gesto do lava-pés: deixar-se lavar por Jesus, aceitar que Jesus seja nosso servo, que não só lava nossos pés, mas dá sua vida por nós. Por isso, queremos servir nossos irmãos... O lava-pés é a Eucaristia na vida!

A última ceia foi uma ceia da páscoa judaica. Jesus quis celebrar essa ceia, mas ao mesmo tempo a transformou, colocando-se livremente como escravo dos seus irmãos! E fez disso a sua “passagem” para junto de Deus! Esta passagem de Jesus se manifesta na ressurreição. Celebramos Jesus na imagem do cordeiro pascal do A.T., cujo sangue preservou os hebreus do castigo que Deus fez descer sobre os egípcios para que deixassem ir os israelitas. Jesus dá um novo sentido. Mas, continuamos celebrando o nosso Cordeiro pascal, cujo sangue (existência) nos salva; este, porém, não foi sacrificado como um animal sem inteligência, mas porque quis livremente servir-nos no amor até o fim.
A “Páscoa” do messias e do seu povo. Uma das leituras da Vigília Pascal lembra o significado da Páscoa no A.T: a passagem do Senhor Deus para libertar seu povo, arrancando-o das mãos dos egípcios e fazendo-o passar pelo Mar Vermelho a pé enxuto. Para os cristãos, Páscoa é a comemoração da passagem de Jesus, da morte à glória. Deus mostrou-se mais forte que os inimigos de seu plano de amor, que mataram o Messias. O amor venceu, e ressurgiu imortal. O Messias vai agora à frente de seu povo, na “Galileia”, lugar onde se encontram os discípulos. Glorioso, o Ressuscitado conduz novamente os seus fiéis, como ensina o evangelho da Vigília Pascal.
Também nós temos de realizar nossa passagem. No início da Igreja, a noite pascal era a noite em que se administrava o batismo. O batismo significa a nossa “travessia no Mar Vermelho”, a nossa descida com Cristo no sepulcro, para com ele voltar à vida nova, tornando-nos novas criaturas, mortas para o pecado, mas vivendo para Deus, em Cristo. Na Vigília Pascal renovamos nosso compromisso batismal. Morremos e ressuscitamos com Cristo. Essa renovação do compromisso batismal é o “selo” que confirma nossa conversão empreendida na quaresma. A alegria da Páscoa não será por causa do coelhinho e dos presentes que o comércio avidamente nos forneceu. Será a alegria de quem passou da morte para a vida, trilhando os passos de Jesus.
(KONINGS, Johan. Liturgia Dominical. Mistério de Cristo e formação dos fiéis (Anos A –B – C). Petrópolis: Vozes, 2003, pág. 98-99 - adaptação)
Equipe do Catequese Hoje
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