Achamos importante lembrar ao Catequista o sentido do Tríduo Pascal:
O Lava-pés: “Ensina-me a amar...” Não sabemos amar, muito menos amar até o fim. Quem nos ensina é Jesus. Para os judeus a páscoa é celebração da memória de sua história e identidade. Jesus, celebrando a Páscoa com seus doze discípulos, fez da páscoa o memorial de sua passagem, sua missão da parte de Deus e sua volta ao Pai, através do dom de sua vida na cruz. Fez da páscoa o memorial de seu amor até o fim. Jesus quis dizer mais ainda. Tomando a atitude de escravo, ele aponta para sua morte na cruz, morte de escravo. A cruz é o verdadeiro “serviço de escravo” que Jesus nos presta e pelo qual ele nos liberta. Não devemos ter medo de nos comprometer com quem morre por amor de nós!
Jesus lavou os pés dos discípulos para lhes dar um exemplo de serviço na humildade e no amor radical, que o levou a dar a vida por eles. Também nós devemos servir uns aos outros e dar nossa vida pelos irmãos. Para isso, não basta lavar, na cerimônia, uns pés que já foram anteriormente bem lavados. Trata-se de tornar-nos escravos daqueles que trataríamos como escravos. É uma subversão.
A Ceia Pascal: A páscoa Judaica não cai no mesmo dia que a nossa. Jesus consumiu com os discípulos, a páscoa judaica e no início dessa refeição, lavou os pés de seus discípulos, em sinal de exemplo do dom da própria vida. O Evangelista João nem menciona o momento da Eucaristia, porque a Eucaristia significa comunhão com Jesus, e esta comunhão se expressa maravilhosamente pelo gesto do lava-pés: deixar-se lavar por Jesus, aceitar que Jesus seja nosso servo, que não só lava nossos pés, mas dá sua vida por nós. Por isso, queremos servir nossos irmãos... O lava-pés é a Eucaristia na vida!

A última ceia foi uma ceia da páscoa judaica. Jesus quis celebrar essa ceia, mas ao mesmo tempo a transformou, colocando-se livremente como escravo dos seus irmãos! E fez disso a sua “passagem” para junto de Deus! Esta passagem de Jesus se manifesta na ressurreição. Celebramos Jesus na imagem do cordeiro pascal do A.T., cujo sangue preservou os hebreus do castigo que Deus fez descer sobre os egípcios para que deixassem ir os israelitas. Jesus dá um novo sentido. Mas, continuamos celebrando o nosso Cordeiro pascal, cujo sangue (existência) nos salva; este, porém, não foi sacrificado como um animal sem inteligência, mas porque quis livremente servir-nos no amor até o fim.
A “Páscoa” do messias e do seu povo. Uma das leituras da Vigília Pascal lembra o significado da Páscoa no A.T: a passagem do Senhor Deus para libertar seu povo, arrancando-o das mãos dos egípcios e fazendo-o passar pelo Mar Vermelho a pé enxuto. Para os cristãos, Páscoa é a comemoração da passagem de Jesus, da morte à glória. Deus mostrou-se mais forte que os inimigos de seu plano de amor, que mataram o Messias. O amor venceu, e ressurgiu imortal. O Messias vai agora à frente de seu povo, na “Galileia”, lugar onde se encontram os discípulos. Glorioso, o Ressuscitado conduz novamente os seus fiéis, como ensina o evangelho da Vigília Pascal.
Também nós temos de realizar nossa passagem. No início da Igreja, a noite pascal era a noite em que se administrava o batismo. O batismo significa a nossa “travessia no Mar Vermelho”, a nossa descida com Cristo no sepulcro, para com ele voltar à vida nova, tornando-nos novas criaturas, mortas para o pecado, mas vivendo para Deus, em Cristo. Na Vigília Pascal renovamos nosso compromisso batismal. Morremos e ressuscitamos com Cristo. Essa renovação do compromisso batismal é o “selo” que confirma nossa conversão empreendida na quaresma. A alegria da Páscoa não será por causa do coelhinho e dos presentes que o comércio avidamente nos forneceu. Será a alegria de quem passou da morte para a vida, trilhando os passos de Jesus.
(KONINGS, Johan. Liturgia Dominical. Mistério de Cristo e formação dos fiéis (Anos A –B – C). Petrópolis: Vozes, 2003, pág. 98-99 - adaptação)
Equipe do Catequese Hoje
O cuidado com a Espiritualidade do Catequista se faz prioridade. É a Espiritualidade que mantém acesa a chama do Amor-Encontro com Deus e da Missão do Catequista. Sem espiritualidade o cansaço, o desânimo, o ativismo, tomam conta.
O que é Espiritualidade?
Será importante explicitar aqui, brevemente, o que é a Espiritualidade. A Espiritualidade é o oxigênio do coração. É viver segundo o Espírito. É uma maneira determinada de viver a globalidade da vida, com seus afazeres, dificuldades, objetivos e desafios, orientando-a pela luz da nossa fé cristã. Espiritualidade é nossa dimensão divina em tudo o que é humano.
Numa bela definição, Pe. Adroaldo Palaoro sj, nos diz: “É a espiritualidade que reacende desejos e sonhos, que desperta energias em direção ao algo “mais”; é a espiritualidade que faz descobrir, escondida no cotidiano, a presença amorosa do Deus Pai-Mãe que nos envolve; é a espiritualidade que projeta a vida a cada instante, abre espaço à ação do Espírito, nos faz ser criativos e ousados em tudo o que fazemos e dá sentido e inspiração a cada ação humana, por mais simples que seja; é a espiritualidade que nos desperta e nos faz descobrir que nossa vida cotidiana guarda segredos, novidades, surpresas... que podem dar novo sentido e brilho à vida.
É um modo de “ler” e interpretar a mensagem que cada experiência de vida pode nos comunicar. Essa dimensão espiritual se revela pela capacidade de diálogo consigo mesmo e com o próprio coração, se traduz pelo amor, pela sensibilidade, pela compaixão, pela escuta do outro, pela responsabilidade e pelo cuidado como atitude fundamental”.
Espiritualidade consiste primariamente não na recitação piedosa e humilde de determinados exercícios devocionais religiosos..., mas num modo de se posicionar na vida e ver todas as coisas. Olhar o mundo com os olhos do coração, ver o sagrado mistério da realidade... Então, espiritualidade não é momentos de oração, é a definição mais capenga. Nem se reduz a sacramento, retiro, silêncio...

Espiritualidade é o cultivo das coisas do Espírito. A palavra espiritualidade vem de espírito. Na Bíblia, “Espírito” quer dizer vida, movimento, força, presença, sopro, ardor. Espírito é a força que leva a agir. Espiritualidade é uma força que nos anima, inspira. Ela vem de dentro de nós e nos impulsiona para a ação. Na vida do Cristão, esta força é o Espírito Santo. Ele acende em nós o fogo do amor: amor a Deus, amor aos irmãos, amor a Catequese. E o amor nos faz atuar, agir.
Quem experimenta o encontro com Deus-Amor deseja estar com Ele. A oração é a conversa mais particular e íntima com Deus, que realimenta e fornece combustível para a dinâmica do encontro permanente com Ele e da leitura da sua presença na vida. Pondo diante de Deus o que somos e vivemos, ele nos ajuda a ver mais claramente, a identificar seu apelo nos chamados sinais dos tempos, que estão aí na nossa história pessoal e na sociedade. A oração mais do que palavras é estar com Deus. Como diz Santa Tereza é “querer estar a sós com aquele que sabemos que nos ama”.
Sem espiritualidade a catequese perde o rumo
Sem o cultivo da Espiritualidade é muito difícil a catequese caminhar bem. As coisas se transformam em rotina, o desânimo vai minando o trabalho, os conflitos tumultuam o grupo. Sem Espiritualidade as pessoas vão ficando endurecidas, descrentes, desgastadas. A Espiritualidade mantém viva o “porquê” e o “para que” somos catequistas. A causa (a paixão por Jesus e pelo Reino de Deus) nos mantém no caminho do seguimento e da paixão pela educação da fé da comunidade cristã.
Quem cultiva a espiritualidade, sente-se habitado por uma Presença, que irradia ternura e amor, mesmo em meio à maior dor. Tem entusiasmo porque sabe que carrega Deus dentro de si. Mesmo com desafios, dores, sofrimentos, um catequista assim sabe-se a caminho e um eterno aprendiz do Amor.
Algumas ações possíveis para o cultivo da Espiritualidade:
- Pode ser preciso realizar algum tipo de formação sobre Espiritualidade (o que é e o que não é; o que é experiência de Deus; a oração cristã...). Mas, é importante ter presente que um curso sobre Espiritualidade não irá resolver o cultivo da Espiritualidade do grupo de catequistas.
- Iniciar todas as reuniões com o grupo de catequistas (da paróquia, da comunidade) com um belo tempo de oração-celebração. Para isso, é importante preparar com antecedência o ambiente e a celebração. O “Catequese Hoje” tem postado belas sugestões em “Tempo da Delicadeza”.
- Organizar Manhãs ou Tardes de Espiritualidade, de maneira bem catequética, cuidando da centralidade da Palavra de Deus. Cuidar para ter espaço de silêncio e oração pessoal. É possível convidar alguém para ajudar na reflexão, mas cuidado para não transformar tudo em palestra e lição de moral. Seria bom se fosse planejado uma vez por semestre, pelo menos.
- Organizar retiros (um dia, um final de semana) com o grupo de catequista. O catequista precisa sair da rotina diária, ter espaço para saborear o encontro com Deus e consigo mesmo. Retiro não é curso ou palestra. Podemos pedir ajuda de algum pregador. Pode ser agendado uma vez ao ano. Quem experimenta o gosto bom de um retiro não irá fugir dele.
- Cuidar especialmente da Acolhida dos catequistas, catequizandos, famílias. Isto é parte integrante do cultivo de uma Espiritualidade da Comunhão.
- Desenvolver o cuidado com cada catequista e também catequizando, percebendo cada um como uma delicada obra de arte de Deus. Escutar as pessoas, ser sensível ao que estão passando.
- É necessário aprender a “gastar tempo” diante do Senhor e de sua Palavra. Podemos cultivar a espiritualidade através de pequenas coisas:
a) A oração ao amanhecer e ao dormir;
b) A leitura cotidiana de trechos da Bíblia,
c) Leitura Orante da Bíblia;
d) Ofício divino das comunidades;
e) A contemplação e a adoração silenciosa ao Santíssimo;
f) Os momentos de silêncio interior para escutar os apelos de Deus;
g) A escuta de músicas, orações ou reflexões de um CD de meditação;
h) A participação na Celebração Eucarística;
i) E outros;
Temos que ter o cuidado para não cair na rotina de usar somente as orações “decoradas” ou simplesmente lidas. É importante rezar a vida e rezar com a vida, trazendo para o nosso interior, portanto, a realidade em que vivemos. Perceber a presença e atuação de Deus na vida, no mundo.
- A oração em comum alimenta em todos a comunhão na vivência em comunidade. A Celebração Eucarística é a que mais expressa e realiza a comunhão com Deus e com os irmãos. Mas a Espiritualidade da Comunidade não se reduz à participação na missa. Toda a vida do cristão deve ser um culto agradável a Deus.
Lucimara Trevizan
Comissão Regional Bíblico-Catequética do Leste 2

O Ano da Fé teve início dia 11 de outubro e se encerrará dia 24 de novembro de 2013. O Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Porta Fidei, em que proclama o Ano da Fé, diz os objetivos: “Queremos uma conversão a Deus cada vez mais completa, para fortalecer a nossa fé n’Ele e para anuncia-lo com alegria ao homem do nosso tempo”. A Renovação da Fé deve ser prioridade!
Em síntese, o que devemos guardar sobre o Ano da Fé:
1. É também um ano para celebrar:
-50 anos do Concílio Vaticano II (1962 a 1965).
-20 anos do Catecismo da Igreja Católica (1992).
-Assembleia Sinodal sobre a Nova Evangelização (que está sendo realizada em Roma neste mês).
2. Finalidades do Ano da Fé:
-Renovação da Igreja.
-Nova Evangelização.
3. Algumas ações fundamentais:
-Refletir (aprofundar o conteúdo da fé).
-Confessar a fé (confissão pública e individual do CREDO).
-Celebrar a fé (na Liturgia).
-Testemunhar a fé (caridade).
4. Os meios e instrumentos para realizar essa tarefa
a) O Catecismo da Igreja Católica (que contém a síntese ou conteúdo da fé).
b) A “história da fé” (memória dos homens e mulheres que testemunharam a fé ontem e hoje).
c) Testemunho da caridade, porque a fé sem obras é morta.
Algumas ações durante o Ano da Fé:
1. Rever a Formação dos Catequistas
- Em que cremos?
- Por que cremos?
É preciso e possível proporcionar espaços de formação sobre o CREDO e sobre a Trindade. O Catecismo da Igreja Católica pode ser a fonte de inspiração. Também a Palavra de Deus que é a grande fonte da catequese. Mais do que a doutrina, a Palavra “amacia” o coração.
Também é importante reforçar a formação básica dos novos catequistas. Sem formação a catequese perde seu vigor. Sem a verdadeira orientação sobre o núcleo da Fé cristã, o catequista costuma “encher” os encontros catequéticos de coisas que não são essenciais a fé, ao seguimento de Jesus Cristo. Daí a importância de reforçarmos a formação dos catequistas.
2. Cuidar da Espiritualidade do Catequista
Mais do que nunca será importante oferecer espaço de cultivo da intimidade com Deus. É possível pensar em manhãs, tardes ou dias de Espiritualidade (uma vez por semestre, pelo menos). Quem sabe até, um final de semana de retiro com o grupo de catequista.
Sem o cultivo da intimidade com o Amado, a vida vai perdendo o sabor, a catequese perde sua razão de ser. É a espiritualidade que mantem acesa a chama do Amor e a missão.
3. Rever o Conteúdo da Catequese
Será importante rever o conteúdo da catequese que está sendo feita com crianças, jovens e adultos. Se o grupo usa um manual (livro) como instrumento, também deve ser avaliado. Há muitos “roteiros” ou “temas” dos encontros catequéticos que acentuam algum aspecto da história da salvação e não privilegia a vida de Jesus, por exemplo. Muitos manuais levam um ano para “contar” a história do povo de Jesus e há poucos temas sobre Jesus... Outros catequistas comunicam sua religiosidade pessoal (devoção) e não o essencial que é Jesus Cristo.
É preciso analisar, estudar o que é essencial a ser comunicado pela catequese, assim não perdemos tempo com o que é assessório. O Centro da Catequese é Jesus Cristo e sua mensagem: o Reino de Deus.
“Apresentar a pessoa de Jesus, sem maquiagem e fundamentalismos, como sentido máximo para a vida, muito além da Instituição, é fundamental! Proporcionar o encontro com Ele e a experiência do seu amor...Isso exige uma catequese mais “enxuta”, voltada para o essencial, despojada de tantos conteúdos e temas que podem ser compreendidos ao longo de toda a vida cristã”. Pe. Vanildo Paiva
Continuaremos a refletir sobre o catequista e o ano da fé nesta seção.
Lucimara Trevizan
Coordenadora da Comissão Bíblico-Catequética do Leste 2
15.10.2012
Imagem: pexels.com

Bendita a sede
por arrancar nossos olhos
da pedra.
Bendita a sede
por ensinar-nos a pureza
da água.
Bendita a sede
por congregar-nos em torno
da fonte.
(Orides Fontela)
Não é por acaso que começo essa conversa com um poema. Como sempre acontece, nele podemos fazer muitos itinerários e eu espero e desejo que cada um de nós possa fazer o seu. Eu lhes proporei alguns, nesse caminho que eu considero uma possibilidade de humanização, e por isso mesmo, desdobrável e múltiplo. Lembro-lhes que aqui também não se trata de uma crítica literária.
A autora repete três vezes uma bênção. E ela bendiz a sede. Curioso que ela nos lembre isso. Porque bem dizer a sede? Habitualmente somos convidados a evitar o desconforto da sede, um estado de privação. Minha boca está seca. Preciso urgentemente de água. Então, porque bendizer a sede?
A sede é o reconhecimento de que somos humanos, que estamos em estado permanente de construção da nossa humanidade. Não estamos prontos em nenhuma instância. Somos seres a caminho. Qual é a nossa sede? Sede de humanidade, sede de humanização.
E o que nos torna humanos são os nossos afetos. Somos afetados pela vida que nos constitui. A nossa imersão no tempo e no espaço da qual emergimos fazendo poesia, contando as nossas histórias. Temos sede de contarmos as nossas experiências de alegria e de dor. Basta pensarmos nas histórias e canções que nos ensinaram do amor e da coragem de existir.
Bendita a sede por arrancar os nossos olhos da pedra.
É um verbo forte: arrancar. A sede arranca os nossos olhos da tentação da saciedade. Temos uma tendência irresistível para a mesmice, para ficarmos instalados na nossa própria compreensão da realidade, agarrados às nossas verdades pré-concebidas para não sermos despertados do sono que nos aliena de nós mesmos, dos outros e do mundo. Surpreendidos pela sede, somos des-instalados e lançados para uma existência que nos transcende, abertos a outras possibilidades para além daquelas conhecidas.
A sede, o estado de inacabamento próprio do que é humano, movimenta o nosso olhar para além da pedra. Com muita facilidade nos desumanizamos, perdemos o nosso jeito de aprendiz, deixando de reconhecer a eterna novidade do mundo.
Bendita a sede por ensinar-nos a pureza da água.
Só a sede nos dá a conhecer a água. Só o nosso olhar, arrancado da pedra, é capaz de nos ensinar que a vida tem um sabor, que a vida pede saboreá-la. O sentido da vida nós o captamos através dos cinco sentidos. Saborear supõe paciência. As pessoas sábias são aquelas que saboreiam o gosto do viver. Aí voltam as histórias. Elas nos contam ‘o sabor das massas e das maçãs’ que o Almir Sater canta em ‘Tocando em frente’. É na lembrança do sabor da água fresca que podemos bendizer a sede que volta e nos arranca da nossa aridez.
Bendita a sede por congregar-nos em torno da fonte.
O que nos congrega é sempre maior do que a gente mesmo. Ouvir a quem nos chama. Sem a sede ficamos surdos para os chamados, cegos para o reconhecimento das fontes. É preciso espiritualizar a nossa vida cotidiana, porque ela tem uma dimensão muito maior do que aquela que nos aponta a necessidade. Não somos necessidade pura em nenhum momento da nossa existência. O que nos congrega em torno da fonte é a sede de humanidade que nos sustenta no caminho.
Num texto inspirado, o Pe. Adolfo Nicolas, superior da Companhia de Jesus (jesuítas), sugere três dimensões importantes para a vida de uma comunidade profética. Um outro modo de bendizer a nossa sede:
Profundidade: para que não nos percamos na superficialidade ou na mesmice (arrancar os nossos olhos da pedra). Jesus nos pede para entrarmos no tempo de Deus. A contemplação cultiva processos lentos e profundos.
Criatividade: para entrarmos nos mundos novos e responder de maneira adequada (saborear a pureza da água). Jesus exposto e encarnado. Ele é o abraço de Deus, acessível a todos os nossos sentidos. Quando O contemplamos, os nossos sentidos se convertem.
Espiritualidade: é a vida no Espírito que leva à transformação (congregar-nos em torno da fonte). Na contemplação, Deus não impõe, mas propõe, oferecendo opções de vida. E nos acompanha nesse caminho.
Na formação de catequistas, em todo processo de educação da fé, na vida cristã, nossa missão é a de despertar a sede, como Jesus fazia.
Fátima Fenati
Psicanalista e membro da Equipe do Centro Loyola-BH
15.09.2012
“... Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E a cada dia o Senhor acrescentava à comunidade outraspessoasqueiamaceitando a salvação”. At 2, 46-47
Há uma variedade de imagens sobre felicidade no facebook, todas são curtidas, comentadas e compartilhadas. Nelas a mensagem é reduzida a três palavras: DEUS, FAMÍLIA E AMIGOS. Sempre que nos lembramos de alguma experiência de grande alegria, na maioria das vezes, ela está vinculada ao encontro com família e/ou amigos. São momentos que alimentam, fortalecem e motivam nossa caminhada. Os que “curtem, comentam e compartilham” possuem a mesma opinião: essas três dimensões do relacionamento humano são preciosas e essenciais para alcançar a tão sonhada felicidade.
Tais experiências não se restringem ao grupo, contagiam quem está ao redor. Quem não faz parte do grupo também é “afetado”, fica admirado, tem desejo de passar pela mesma experiência, vontade de fazer parte do grupo. Na catequese precisamos vivenciar essa certeza: somos a grande Família de Deus e nós, como irmãos e irmãs, formamos o Corpo de Cristo. A convivência no grupo de catequista é a de uma grande Família de irmãos, é experiência de Felicidade!
Na convivência em comunidade fraterna cada catequista alimenta sua vida de oração, a escuta da Palavra, a partilha... O grupo é fonte de vida, de esperança, de animação, de diálogo, de fraternidade e de alegria. Nele acontece a formação, a troca, a reflexão, o crescimento. Também a partilha das dificuldades, angústias, cansaço, desesperanças, dúvidas, busca de solução. É no crescente aprendizado no relacionamento entre os integrantes do grupo que este vai amadurecendo e conquistando outras pessoas da comunidade para participar dessa família, desse grupo de amigos. Nele o catequista se sente fortalecido em sua missão.
O relacionamento entre os catequistas vai se construindo a partir de encontros e desencontros. Na transparência, na honestidade, no respeito e cuidado para que o grupo seja uma árvore por todos cultivada, cuidada, para que em todas as estações se viva o inevitável (crescer, florescer, frutificar, desfolhar...). Cada pessoa também passa por “estações”: um inverno rigoroso, triste; um verão ora festivo, revigorador, ora escaldante, que queima qualquer um que se aproxima; um outono sombrio ou silencioso, pensativo, onde as esperanças se renovam; a fé renasce na primavera com festa, alegria, sorrisos.. O que é importante lembrar é que tais estações podem acontecer num mesmo dia, numa mesma semana ou num mesmo momento.
No texto “No “outro” para os outros”, Frei Cláudio Van Balen nos alerta: “...Na relação com o outro, sou revelado a mim. O outro é o portador de minha transcendência. Sem ele(s) ou ela(s), minha insignificância permanece minha prisão; e ‘com’ ele(s) ou ela(s), meu valor se revela, minha potencialidade se desdobra para que minha grandeza se construa, meu círculo se amplie, minha missão se cumpra. Graças ao ‘outro’, configuro meu rosto e ocupo meu lugar neste Universo. O outro é a garantia e o sentido de meu existir.” Nessa experiência vamos nos humanizando e cada vez mais nos aproximando da proposta e ação do próprio Jesus.
Como vai nosso grupo de catequistas? Nós nos encontramos para preparar os encontros, planejamos e avaliamos nossa caminhada? Essa é uma grande oportunidade de formação, ajuda mútua e enriquecimento.

Em nosso cronograma anual há espaço para momentos de espiritualidade e partilha de vida? Estes são momentos de rica experiência da oração e vida partilhada. Guardamos um tempo para lembrar e festejar o aniversário dos catequistas? Para uma visita quando há motivo de festa ou de dor? Com a lista de nomes, endereços, telefone, e-mail, facebook... em mãos, é possível priorizar um tempinho para um prazeroso encontro ou, se impossível na correria do dia a dia, pelo menos ligar, enviar mensagens, recadinhos.
As confraternizações no final de cada semestre são realizadas? Vivenciamos momentos de lazer, passeios, um divertimento comum em grupo? Esses são momentos especialíssimos de oração, partilha e festa: um oferece a casa e todos partilham seus dons para um saboroso café da manhã, lanche, almoço.
São inúmeras as experiências e vivências que podemos partilhar no grupo de catequistas. Quantas alegrias (casamentos, passeios, retiros, almoços, celebrações,...), lágrimas divididas em momentos difíceis (acidentes, doenças, mortes), isso tudo vivido de forma conjunta e intensa. Como foi bom. Foi? Não! É! O grupo se modifica, uns precisam ir por outros caminhos, uns retornam, outros chegam. O que mantém o grupo de catequistas é a abertura ao Criador que possibilita a vida, ao filho que muito amou e ao Espírito que mantém acesa a chama do “amor, fraterno amor”.
“...Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove...., é o que dá sentido à vida...” Cora Coralina
Ana Angélica Ribeiro
Comissão Regional Bíblico-Catequética do Leste 2
01.08.2012
Todo trabalho sério necessita de um tempo mínimo para gerar frutos. É o tempo da preparação, do amadurecimento, da afinidade e de estreitar laços. Em se tratando do grupo de catequistas, no qual a sintonia do grupo se reflete diretamente na catequese, esse tempo de crescer juntos é fundamental. A amizade entre os catequistas, o companheirismo, a união, o respeito, cada um reconhecendo seus limites e seus valores e conhecendo os dos outros, revelam o amor, núcleo da catequese e da vivência em comunidade.
Porém, um dos aspectos mais apontado pelos catequistas e coordenadores ao indicar as dificuldades para a catequese é, justamente, a mudança constante no grupo de catequistas. Renovação é bom, e precisamos de mais catequistas. Porém, toda mudança deve ocorrer dentro de um processo, e não bruscamente como acontece atualmente, para a mera substituição de quem falta ou deixa a catequese.
Sendo a catequese um processo, e o catequista aquele que caminha junto, que cresce e aprende junto, a saída repentina dele, muitas vezes sem qualquer aviso, ou quando muito, vindo com uma semana ou um mês de antecedência, impulsiona o coordenador, “desesperado”, a atirar para qualquer lado, na intenção de encontrar alguém que substitua o catequista. Então, surgem alguns “novos catequistas”, e pronto, o grupo está totalmente diferente. Agora imaginem se isso acontecer a cada seis meses? Os catequizandos sem qualquer referência, o “novo catequista” sem a mínima formação e conhecimento do grupo, a catequese sem um planejamento coerente, enfim, todos perdidos, bagunça geral.

Certo nisso tudo é que ninguém, que ama a catequese e a leva a sério, se sente confortável com tal situação, e com frequência pergunta: “Por que isso acontece?” É preciso entender que em princípio, as mudanças ocorrem devido à falta de catequistas, agravada pelo alto número de desistência daqueles que já têm certo tempo de caminhada. Portanto, esse será nosso ponto de partida.
Nesse sentido, elencamos alguns aspectos que podem ser as principais causas (mas, com certeza, não serão as únicas). A primeira delas é óbvia, a falta de formação ou sua precariedade. Vale lembrar o texto 59 - Estudos da CNBB, Formação de Catequistas, ao apontar a necessidade da formação expondo que “Ninguém nasce catequista. Aqueles que são chamados a este serviço podem tornar-se bons catequistas através da prática, da reflexão e da preparação adequada, na consciência de serem enviados e comprometidos com a educação da fé” (n.64).
Uma pessoa sem a mínima noção do que é a catequese, sua finalidade e seus objetivos, nunca deveria ser responsável por catequizandos, já que não tem preparo suficiente para tanto. Entregar para essa pessoa um grupo, por exemplo, é correr o risco, de em breve, ficar sem catequista, pois ela pode descobrir que aquele não é seu lugar, ou desistir diante da menor dificuldade. A formação faz pensar a vocação, trabalha o aspecto humano, mostra o que a missão de ser catequista exigirá, chama a atenção para aspectos do conhecimento, de nossa fé cristã, ou seja, quem não passa por essa experiência, não terá condições de superar os desafios que com certeza virão. Mas a referência aqui é da boa formação, e não os cursinhos com matérias, apostilas e especialistas em áreas teológicas, que nada entendem de catequese e se referem aos catequizandos como “alunos”, transformam a formação em aula quando a catequese é uma experiência. Tudo bem que, às vezes não tem como fugir do esquema acadêmico, porém, devem ser criados outros momentos que amenizem essa estrutura: as orações que não precisam ser sempre um Pai Nosso e uma Ave Maria; uma dinâmica que introduza o tema; um vídeo interessante; uma música que quebre a exposição maçante, etc. Ou seja, não se pode denominar “formação para catequistas” qualquer cursinho, como dito anteriormente; do contrário, enquanto pensamos estar preparando bem nossos catequistas, estamos na verdade criando problemas para o futuro: pessoas que não se comprometeram realmente e que simplesmente “largam” os catequizandos, sem se preocupar com os resultados disso.
Em decorrência da falta de formação adequada, temos outros pontos que merecem igual atenção. Um deles é a falta de estrutura, apesar do que vem expresso no número 236 do Diretório Nacional de Catequese, em referência, inclusive, ao Código de Direito Canônico:
“Catequistas são sabidamente generosos, oferecem seus serviços e seu tempo em espírito de gratuidade. Mas muitos são pobres e cooperam penosamente no sustento da família. A comunidade que aceita seu trabalho e precisa tanto deles deve ter sensibilidade para pôr à disposição da catequese livros, material pedagógico, cobertura financeira para cursos, encontros, reuniões dos quais os catequistas devam participar (cf. CDC 779)”.
No entanto, é comum ouvir dos catequistas, reclamações a respeito de falta de material, de espaço, de infraestrutura, ou seja, de atenção em relação à catequese. É irônico dizer que a catequese é essencial na Igreja e, na realidade, perceber que em algumas comunidades não há sequer um lápis para usarem. Chegamos ao absurdo de catequistas terem que promover eventos para custear as atividades da catequese, ou até custear os gastos com recursos próprios. É uma situação desafiadora e o catequista experiente saberá agir, pois entende bem que o dízimo não se destina somente às despesas corriqueiras com o templo, os padres e os funcionários, mas para manter toda a estrutura da Igreja, inclusive ou principalmente, a catequese. Mas os catequistas iniciantes, ainda em processo de integração no grupo, ou aqueles com mais tempo, porém com uma formação precária, não sabem disso, e ainda acreditam ser deles a responsabilidade financeira com a catequese. Total falta de estrutura aos poucos vai desgastando o catequista. Este, muitas vezes sem recurso, começa a acreditar que não pode continuar; e o pior, ao “sair” nem usa essa razão, talvez por se sentir envergonhado.
A falta de apoio e acompanhamento também são causas para a frequente mudança no grupo de catequistas. Alguns coordenadores e padres, responsáveis diretos pela catequese na comunidade, ainda pensam que basta “entregar” os catequizandos a alguém, sem importar seu preparo, vocação, condições, nada. Desde que “seja oferecida a catequese na comunidade” está tudo certo. Acreditam estar resolvendo o problema da falta de catequistas, e revelam maior preocupação com o número do que com a qualidade desses catequistas. Não há orientação, clareza, comunicação; é cada um por si. O coordenador nem sabe como o catequista trabalha ou o que faz com os catequizandos, e o padre nem toma conhecimento do que acontece na catequese. Sem apoio, e com certeza, enfrentando duras críticas, a pessoa, quando não se torna o próprio “problema”, magoada e desvalorizada acaba desistindo.
Pode acontecer ainda, que o catequista cheio de boa vontade e até ingênuo, assuma várias responsabilidades no grupo, e esse excesso causa extremo cansaço e grandes conflitos. Fazendo com que o catequista em pouco tempo, acredite precisar de um “descanso”.
Contudo, como mencionado, essas razões não esgotam todas que podem causar a grande rotatividade no grupo de catequistas, mas resumem as principais. O fato é que a resposta a essa pergunta estará sempre entre nós: ou é a comunidade (falta de estrutura), ou é a coordenação e o padre (falta de apoio, acompanhamento e falta de formação). O importante é cada um identificar onde estão suas faltas, já que essa situação traz grandes implicações para o processo catequético como um todo. Consenso é que, planejamento sério não pode ser refeito em tão pouco tempo, dando a noção de estarmos sempre começando do zero, o que demonstra enorme falta de organização e gera uma insegurança tremenda.
Karla Bianca F. Ribeiro
Equipe do "Catequese Hoje"
15.07.2012
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